2:01 AM

Memórias dum emigrante

Posted by Robino do covil

São seis e meia da manhã e já estou na estação à espera do comboio que me levará ao bules. Caí uma chuva miudinha e ainda é de noite. Sete e meia e já estou fardado, gravata vermelha, jaqueta negra e camisa branca, todo pimpolho, a fingir que gosto de trabalhar, que não há nada na vida que eu mais gostasse de fazer do que ajustar pratinhos, guardanapos e talheres, no imenso salão de refeições vazio deste Hotel.

Hoje parece que vem cá um grupo de compatriotas e já sei que estou fodido: meia manhã perdida a sacar bicas a torto e a direito. O que vale é que o meu sotaque mudou muito nos últimos meses e os porcos dificilmente se aperceberão de que sou português. Senão, estava tramado, até onde se arranjam putas me perguntariam. Como está, posso queimar-lhes as bicas à vontade, que o palhaço do Paquistanês é que acaba sempre por pagar o pato.

A vaca da Jane, a gerente escocesa, vê-me com desprezo, tudo porque nunca consigo desviar os olhos das suas pernas. E porque sou um reles empregado de mesa moreno e baixote, com o irritante hábito de citar Molière, em francês, por dá cá aquela palha, e a quem ninguém, nem mesmo esta puta, conseguiu jamais enrabar. São muitos anos disto, Maria, anos demais.

Trabalha-se bem e a doer aqui no Hotel. Sempre a dar-lhe forte e sempre de pé. Em cima dos sapatos para a frente e para trás até ser hora de fugir para a cigarrada da praxe, e vá de voltar para a cozinha outra vez a sonhar com a merda do clima ameno e do terreno em Guimarães onde vamos construir o café.

É complicado fumar aqui. Os tipos de cá não gostam do fumo e em todo o Hotel só mesmo na porta dos fundos, por onde pessoal e entregas passam, se pode esgalhar uma cigarrada sem problemas de maior, e, ao mesmo tempo, catrapiscar as gajas novas da limpeza. São cá umas porcas, as putas, se não metem pelo menos um motherfucker por frase até fico admirado. Enfim, curiosidades desta working class que esqueceu a família Belamy e se rendeu às novelas dos primos americanos.

De manhãzinha faz muito frio aqui e para fumar convém ter a porta aberta, não vá a merda do detector de incêndios entrar em delírio e começar a disparar pois já me chega a merda da má sorte corrente que me dá esta puta de vida e estes empregos merdosos. Está gelado, aqui, aqui está sempre gelado.

Mas está-se bem ao mesmo tempo. Tira dali, coloca mais a frente, faz-se um desvio um pouco a esquerda, “Yes sir, cofee or tea? Would you like some toast? Certainly sir, in a moment”, entra-se pela cozinha, máquina de café a postos, os pratos sujos atirados judiciosamente de propósito para espirrarem na farda imaculada do imbecil do colega paquistanês, torradeira no canto do olho, ouvido atento à piada brejeira do subalterno dos ovos estrelados, e toca a andar que o tipo da mesa gosta pouco de esperar pelo seu chá... Aliás, quem gosta de esperar pelo seu chá? Essa agora...

Nisto são duas da tarde e só falta uma para dar de frosques, a dor nas pernas é insustentável, mas não há nada a fazer; é preciso lutar, lutar sempre. As libras não caem do céu e sem elas não há vida depois da Inglaterra. O paquistanês que o diga.

“Could you clean the cutlery, Robino?” Sim podia, minha doce vaca, mas preferia limpar-te os talheres antes a ti, sua boazona... “Sorry Robino? Nothing Jane, of course i’ll clean the cutlery, i’ll do it straight away. Thank you Robino, if you keep the good work, who knows, in a couple of years you might even apply for head-waiter.” Isso, isso, filha, “in a couple of years” já fui com os porcos e o teu sarcasmo não me comoverá; mas essas mamas deliciosas desde sempre me comoveram e sempre me comoverão, chuif.

E vá de enfiar a merda dos talheres no frasco do vinagre morno e enxugá-los, um por um, são pelos menos mil, a mielas com o Paki, de forma a que não fiquem com as marcas foleiras da água da máquina de lavar. Este trabalho é o maior frete de todos, mas faço-o sempre com rigor e profissionalismo. Ele também. Afinal, esta merda é ou não é de cinco estrelas? Sim, porque, foda-se, temos brilho nas merdas que fazemos, eu sou um bom profissional, ele também, e gostamos de o ser e se o não fossemos há muito estes paneleiros nos teriam posto com dono. Aí, então, é que estava o caldo entornado. Nem libras, nem Maria, nem negócio quando voltar a Portugal. Mas, porra, como me doem as pernas.

O Paki também está cansado, e apesar da religião acaba por ser bom tipo. Traz sempre um sorriso doce e generoso. E depois de todas as merdas que lhe faço, tem sempre para mim um gesto atencioso e quando me finjo de teso nunca me nega uma nota de dez. Estou cansado, Maria, muito cansado.

O que nos vale é que nos deixam cagar pelo menos uma vez por dia e sempre que vou à sanita aproveito para descansar e gozar com a malta. Apercebi-me há dias que o otário do chefe da cozinha, que tem uma mulher podre de boa e que por isso se julga erradamente corno, costuma ir arrear o calhau sempre por volta das duas e meia. Vou um bocadinho antes dele e entretenho-me a rabiscar na porta da cagadeira mensagens jocosas destinadas a impedir que ele usufrua em paz do seu momento solitário. Estou particularmente orgulhoso da que lhe deixei hoje: “While you’re here, your wife is sucking cock”.

O Paki ri-se de tudo isso e diz-me num tom estudado e subtilmente irónico: “you portuguese are all mad, the Prophet will take good care of you all in the after life; and your wife will fuck you personally in the present one, my dear Robino”.

Três e meia da tarde. É quase noite outra vez lá fora. Que se fodam os talheres e vão todos comer na peida, seus filhos da puta, que tenho mais o que fazer. “Bye bye Jane, got to go. Bye bye Ahmed, see you tomorrow”.

E arranco para a rua. Passo ao quiosque por baixo do túnel que tem revistas de gajas nuas e apanho o autocarro que me leva ao city centre para o segundo turno do bules no bar. Merda, se continuo com dois empregos dou cabo da saúde, penso eu, enquanto passo os olhos pelas Macnotícias do jornal gratuito. Se me aleijo a trabalhar, aí sim, não haverá libras que me valham. Se não fosse a promessa de nos casarmos quando voltar e abrir o café, não sei Maria, não sei.

Entro a bulir pela tardinha, seis da tarde a bater, no caminho passo primeiro ao Gallery, só pró whiskinho ligeiro e para sondar o ambiente da evening. Sim, porque o Gallery é sempre um bom barómetro da noite. Quando o Gallery está cheio, é porque estou fodido.

Mas isso são detalhes. O Gallery é a primeira paragem no caminho para o bules. Ando muito nervoso nos últimos tempos e para ganhar confiança bato-me logo em seguida ao Bay Horse, onde o whisky é mais barato. Sítio fodido, só dá mangueira no Bay Horse e saio de lá claustrofóbico, a olhar o relógio e já a estugar o passo.

Última paragem, o Loop. Lindo nome, não sei como se traduz loop, mas a mim sempre me deu a ideia de salto em frente, vigoroso, quase atrevido, confiante e bem disposto. O Loop é um bar como o que gostava de abrir contigo em Portugal, ou nem por isso, por estas horas já me estou bem nas tintas e vejo tudo cor de rosa. Mas, de certo modo, o Loop é classe, outra onda, mais business e menos povo, malta de escritório high-tech, mulheres bonitas pintadas de fresco, executivos de fato e gravata, empregados de mesa imaculadamente latinos... Jack Daniels e toca a andar, agora já nem disfarço e vou mesmo a correr.

A tasca aonde vou buscar em cinco horas mais dinheiro do que em três dias de Lisboa é grande; um espaço amplo, com muitas mesas de madeira, mesas de bilhar, duas pistas de dança, e três bares propriamente ditos. A minha função? Simples: apanhar copos e depositá-los no bar principal, na área de serviço. Fácil? O caralho!

Na hora de ponta são mais de mil indivíduos, pelo menos 600 bêbados, 700 muito bem dispostos e 999 que se estão a cagar para ti e para o teu trabalho. Chegas ao fim e deitas um cheiro esquisito; metade destilaria, um quarto cavalo, e um quarto homem-raiva-desespero, Maria.

O giro é o ambiente, todos os empregados estão com os copos, e eu sou talvez dos que menos bebem. Ainda assim, pela surra um gajo apanha tosgas de virar o catramundo e aterrar na Lua; bem se vê, só mesmo a gozar é que se leva com um emprego destes.

E as gajas, olha, as gajas passam-se a valer com os homens do bules, oh se passam...

O pior é que ao fim dum tempo um homem nem sequer as vê – só vez copos, garrafas, copos altos, garrafas de litro, copos de pint, garrafas de champanhe, copos de cocktail, copos fáceis, copos difíceis, colegas que se piram, colegas que te berram aos ouvidos, colegas que te passam vodkas duplos para as mãos, colegas que desmaiam e caem para o lado... e copos e mais copos e copos...

Fodido mesmo nem sequer é isso; fodido mesmo é quase a acabar, pegar em bancos que pesam 30 quilos cada, e vá de os arrastar e atirar dum lado para outro sem objectivo aparente que não seja dar cabo do caparro. No fim, a tarefa simpática: varrer tudo, meticulosamente, irrepreensivelmente, antes de me enfiar num taxi para ir dormir sozinho às duas da manhã. Maria, se não fosses tu, Maria, não sei, não sei.

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